Pesquisa Quaest: brasileiros estão mais preocupados com segurança do que economia, saúde e corrupção
Para alcançarmos êxito, precisamos de ações coordenadas e elevar a segurança pública a uma questão de Estado, não apenas de governo.
11/20/20252 min ler


Ao invocar Sêneca, o filósofo Michel de Montaigne dizia que a natureza criou um só meio de entrar na vida e cem mil para sair dela. O homem é ele e sua circunstância, e Montaigne, um ensaísta francês do Renascimento, se vivesse no Brasil dos dias atuais, jamais falaria tão candidamente a respeito da morte – para ele, meditar sobre a finitude da vida era refletir sobre a liberdade.
O brasileiro entende hoje que libertador mesmo seria sair de casa sem precisar temer a bala perdida, a violência urbana, as facções e a criminalidade. O cidadão comum receia, verdadeiramente, de que aquele adeus ao familiar que sai de casa para trabalhar pela manhã possa ser o último. E, se confrontado com o tema, meio que de bate-pronto, responderá convicto de que suas hipóteses para morte talvez se restrinjam a três ou quatro, bem distantes das cem mil possibilidades para o esvair da vida que habitavam as elucubrações do renascentista francês.
O país vive, hoje, num estado de insegurança crônico. Pesquisa Quaest divulgada esta semana expôs esse sentimento de vulnerabilidade. Mostrou que os brasileiros estão mais preocupados com a segurança do que com a economia, a saúde e até a corrupção. Por isso, o tema frequenta os debates nacionais e será crucial nas eleições de 2026.
Bandeiras partidárias à parte, a maioria da população já concorda que não é possível mais ter uma visão paternalista do crime. Nem tratar o bandido apenas como vítima de uma sociedade injusta. Os números revelam que quem adotou políticas de menor tolerância com a criminalidade combateu o crime com mais eficiência e conseguiu devolver a percepção de segurança à população.
De fato, não é possível mais transigir com o crime nem com o criminoso, sob pena de sucumbirmos à uma violência cruenta que nos amedronta a todos. Para alcançarmos êxito, no entanto, precisamos de ações coordenadas e elevar a segurança pública a uma questão de Estado, não apenas de governo.
Não foi o que se viu nas últimas semanas. Ao avaliar a operação contra o Comando Vermelho, no Rio, o atual governo, num primeiro momento, adotou a retranca e preferiu modular o discurso a agir. Na sequência, enviou ao Congresso a lei antifacção, cuja relatoria ficou sob a batuta do secretário de Segurança de São Paulo, Guilherme Derrite. Era para ser construído um acordo em torno do assunto. Mas ninguém se dignou a descer do palanque. E, com todo mundo olhando pelas lentes eleitorais, o projeto embaçou. Mexe daqui, mexe dali, o PL acabou tão desidratado e alterado ao longo da semana que nem governo nem oposição possuíam mais segurança em submetê-lo aos seus próprios pares. Por isso, a análise da proposta ficou para a próxima semana – isso se não mudarem outra vez.
O problema é que o Brasil tem pressa. Para um país que um dia abraçou a narrativa segundo a qual a esperança teria vencido o medo, hoje, em razão da insegurança, o medo está vencendo a esperança. No Brasil atual, nem Montaigne conseguiria paz.
